15 de julho de 2026

Festa Junina

Semana que vem começa o período de festa junina, com suas bandeiras de papel crepom colorido, música caipira, barracas de comidas típicas (e outras guloseimas não tão típicas assim) e dança de quadrilha.

Sinto que a coisa desandou aqui em SP. 

Virou mais uma festa escolar usada para tirar dinheiro dos pais com ingressos de preço exorbitante (como se as mensalidades já não o fossem) e comidinhas em pratos de plástico que custam horrores.

Pensando nesse custeio, lembrei de minha infância.

Estudei em um colégio de madres no Grande ABC, onde a festa junina era usada para levantar dinheiro para a igreja local, numa espécie de quermesse. Naquela época éramos todos inocentes, 13, 14 anos de idade. Hoje vejo como seria uma experiência de trabalho infantil/ escravo do qual os alunos não viam nem cor do dinheiro. Mas não pra nossa turma.

Éramos cinco grandes amigos, inseparáveis e parceiros em tudo. Como nos conhecemos é uma história para ser contada em outro momento.

Naquela festa junina tivemos a brilhante ideia de negligenciar o trabalho nas barracas, montar um empreendimento comercial mais interessante, voltado para o sentimento de raiva e vingança alheia. Ficaríamos responsáveis pela cadeia da festa.

A coisa deveria funcionar da seguinte forma (nomes não representam a realidade, sendo usados aqui apenas como mera figuração): Deolane tinha raiva do Mario, ela procuraria um dos quatro delegados ou o carcereiro e pagaria um real para colocar Mário na lista de procurado pela justiça. Mário então seria caçado pela festa toda pelos delegados e seria arrastado até a cadeia, onde ficaria por cinco minutos exatos, contados pelo carcereiro que usaria o cronometro do professor de educação física. A própria cadeia seria a sala de depósito de materiais de educação física, com pneus velhos, bolas, cones e redes, sendo que a porta da sala era na realidade um portão de barras de ferro, que ganhou nesta data uma linda canequinha de ferro para que os detentos pudessem bater a vontade e externar seu ódio nas barras.

Plano perfeito, pensamos. Até que Mário, quando saiu de seu calvário, resolveu se vingar de Deolane, pagando não apenas para prender ela, mas para prender Ruth, a melhor amiga fofoqueira. Logo não apenas Deolane estava pagando para arrastarmos Mário novamente, como Ruth achou que seria legal oferecer-lhe companhia, mandando prender Carlos, melhor amigo de Mário. 

E assim se fez a zona.

Em poucas horas tínhamos prendido boa parte dos alunos da quinta a oitava série, além de alguns poucos meninos da terceira série que pagavam para serem presos e curtir a vibe. Cada um com a sua ideia, não estávamos lá para julgar, mas sim para cumprir a ordem do dinheiro.

Em determinado momento, cansados da labuta incessante, nos encontramos sentados a beira da quadra analisando o conteúdo de nossos bolsos. E para nossa surpresa o recheio era pleno de moedas e notas num montante que até então nunca havíamos colocado nossas mãos.

Olhamos gravemente uns para os outros, crianças cheias de desejos e vontades próprias. Pensamos em tudo o que poderíamos fazer com aquele dinheiro: chicletes, refrigerante, fliperama!

No final do dia nos encontramos frente a madre superior, coordenadora da festa e das barracas. Uma pena não termos conseguido tantos recursos quanto as demais barracas, demos tudo de nós pela causa mas o publico não aceitou a ideia da coisa, uma pena.  

Lembranças de um tempo qualquer

Quanto tempo se passou? Você se lembra?

Perdi as contas em algum momento, mas nem por isso esqueci tudo o que vivemos.

Interessante, anos depois, ainda ter fixo em minha memória o apagar das luzes e o toque sutil da água quente, da pele, da duvida crepitando na mente e ao mesmo tempo da certeza absoluta do desejo.

Como predito certamente você já me esqueceu, mas tudo bem. É o mal que a água faz quando se afoga, e o salva vidas não está lá. Não era assim que a canção dizia?

As vezes me pego vendo fotos do passado, relembrando momentos íntimos, mas é tarde demais pra mim.

Se por acaso acabar por aqui, relaxe, é puramente platônico. Esse amor arrebatador se acabou da forma como tinha de acabar, e está tudo bem.

O louco é compreender o quão infinito o amor pode ser, e o quão imenso pode ser a capacidade humana de oferecer esse bem querer de forma tão simples.

No fundo espero que esteja bem, que viva sua vida plenamente assim como tenho vivido a minha.

 

28 de maio de 2025

2025

Cheguei tarde da noite.

Não tinha intenção de chegar tão tarde, ou pelo menos não tinha a intenção deliberada de demorar tanto pra chegar. As coisas foram simplesmente acontecendo, uma após a outra, numa sequência sutil no começo mas truculenta quando se percebe a velocidade. A vida é assim mesmo, não é?

Saquei do bolso o molho de chaves, algumas amareladas pelo tempo, desgastadas. Lembrei de colocar marcações em algumas delas em algum momento, trapinhos de papel com durex que hoje estão carcomidos, letras quase sumindo. Outras só se juntaram as demais para facilitar o acesso a elas em algum momento, como aquela do cadeado da bicicleta que nunca mais andei, ou da porta do apartamento na Brigadeiro Luis Antônio que deixei a anos atrás. Uma coleção de pedacinhos de metal e suas fechaduras nostálgicas.

Mas nessa noite, essa em que cheguei mais tarde do que deveria, eu sei qual chave pegar. A verdade é que ela nunca saiu da posição no aro metálico único dela. Esteve sempre lá quando sem querer colocava a mão no bolso e sentia as ranhuras atipicas que só ela tem, ou quando ao jogar o conjunto sobre a mesa ou prender no suporte da parede, o olhar se perdia em seu brilho e no detalhe azulado de plástico do nome do fabricante.

No fim não teve suspense, não teve ranger ou dobradiça enferrujada. A máquina funcionava perfeitamente bem e abraçou a chave em suas travas como se esperasse a uma eternidade por ela. 

Aquela porta, a que levei anos demais para reabrir, a que deixei para trás sem entender porque,  a que ignorei quando passei em frente perdido, a que me encarou quando parei de frente resoluto em demolir tudo, a que me escorou a cabeça quando estive sozinho em delírios obscuros, a que como objeto ainda que incólume tenha esperado por tanto tempo nesse banimento de memórias, se abriu tranquila como quem diz: já era hora meu bem, seja bem vindo de volta. Porque demorou? Por onde andou? Entre! Me conte novas histórias, o tempo segue firme lá fora, mas não se engane, ele passa aqui dentro também, ainda que macio. Aproveite o espaço. Ainda que muito tarde, é cedo para começar e ainda temos algum tempo. 

E assim aqui estou, depois de tanto sobreviver, de tanto viver, de tanto bater e tanto apanhar, de tanto chorar e sorrir e afagar e partir, nessa noite única como somente ela pode ser, voltei ao meu espaço.

Ainda que o silêncio me olhe do lado oposto, não me espanto ou me incomodo. Tomo de volta meu espaço, moverei meus móveis como e quando quiser, deitarei onde for de minha vontade e largarei frases soltas por onde puder. Ainda que no fim todo esse aglomerado de pensamentos vivos acabe por se tornar meu legado (e essa é apenas uma esperança para dias que virão), essa noite devo apenas apreciar mais uma vez a luz e a brisa leve entrando pela porta aberta, afinal, a vida é assim mesmo, não é?

20 de dezembro de 2015

Sobre o monologo irreal

Durante o dia devo criar em média uns mil e quinhentos textos diferentes em minha cabeça.
Ao longo do dia esqueço um por um, metodicamente, como se nada tivesse acontecido.
Ai chega o dia em que encontro alguém para discutir, filosofar, argumentar sobre assuntos diversos de forma agressiva até, e me deparo com algo estranho.
Como pode alguém que argumenta, que pensa e forma uma ideia "x" querer a todo custo expor sua ideia e não escutar nada do que o outro tem a dizer? Como lapidar sua própria certeza sem colocar a prova sua ideia escutando o que outras pessoas tem a falar sobre o caso?
Respeito a ideia de cada ser humano, ainda que não seja a mesma que a minha, que não a aceite, e ao escutar pela primeira vez tento não julgar o que me é dito exatamente para não avaliar precipitadamente.
Mas e quando alguém impõe o que pensa de tal maneira a ir contra qualquer coisa que você diga, inclusive insistindo em um monologo pré montado, bloqueando até qualquer tipo de resposta por não aceitar ser interrompido?
Não sou extremista, nunca gostei de extremismos por não acreditar que eles forneçam uma ideia fiel a realidade, mas sim algo viciado pela opinião própria e fatos corrompidos. Sempre acreditei que exista casos e casos e que tudo deve ser avaliado de forma neutra e exclusiva, pois, para mim, a vontade humana de fazer o bem ou o mal não se pode ser colocada em uma tabela com uma média, mas sim vista sob o aspecto particular de cada indivíduo.
Ou seja, antes de julgar o ocorrido, entenda a história, compreenda o que aconteceu, e conheça quem participou, um por um. Só assim é possível ter uma ideia mais próxima do ocorrido.
Exemplo? Acreditar que pessoas pobres são segregadas pelo meio em que vivem, pelo capitalismo ou por qualquer outra força externa me parece pouco provável, já que cada um é dono de si mesmo e pode guiar seus passos muito bem a partir do momento em que tem plena noção do que se está fazendo, e hoje em dia, me corrijam se eu estiver errado, acontece muito cedo, ou pelo menos muito mais cedo do que quando eu tinha 15 anos, anda que exista a necessidade de se estudar caso a caso.
O fato é que todos podemos aprender, ganhar mais conhecimento e mudar nosso mundo particular, indiferente do meio em que vivemos ou da forma que fomos criados.
Cada um tem poder sobre seu próprio destino e sobre o que quer fazer a seguir.
Existem milhares de atenuantes e problemáticas, já que estamos sempre suscetíveis as vontades de terceiros ou a acasos fora de nosso controle, mas inevitavelmente todos iremos viver até onde for possível, e essa é uma escolha particular, uma vontade própria, um ato deliberado de uso do pensamento individual para seguir em frente.
Então não me venha com essa história de que não temos poder sobre nossas vidas, de que não tenho forças para alcançar níveis maiores ou ser alguém melhor ou com mais recursos.
Só mexendo com meu livre arbítrio pra me fazer escrever assim mesmo...

20 de outubro de 2015

Velho amigo

Então é nisso que nos tornamos, meu bom amigo?
Era nisso que estivemos pensando nas noites em que, sentados pelos bares da cidade, observávamos o movimento, o ir e vir da modernidade? Era disso que falávamos entre um gole e outro de cerveja e a incerteza que vinha ao amanhecer?
Lixos insones que eramos, acreditando em um mundo terrivelmente poético, diluído no fundo do copo de cachaça.
A poesia só existe para os que transformam a realidade em nuvens espessas, podendo atravessar por ela incólume, sem se preocupar que dissolva em suas mãos algo impossível de segurar ou guardar, que na pele só deixa o frio do contato e uma vaga lembrança, nada mais.
Não sei sobre sua realidade, se senta no sofá da sala para beber e escutar a nostalgia assoviando velhas canções, se afaga o cachorro fiel que lhe caga no tapete uma vez por semana, se abre o livro morto na estante que nem se lembra de ter comprado, se torce o nariz para o sabiá laranjeira madrugador, se o quer morto pelo coração ou se quer que alguem lhe salve.
Salvem o passarinho, e bem longe de você.
Te lembro a história de um outro amigo daqueles tempos, que, perdido na noite, se via entregue ao volante emborrachado do carro a dar voltas pela cidade. Nos parecia tão impossível chegar a uma realidade tão infeliz e solitária, independente do que viéssemos a viver.
Mas e se ao ter tudo, descobre-se não tendo nada? E se o sentir-se satisfeito vier somente ao fim do tanque de combustível? Seria a ultima gota de álcool o fundo do poço? Evitemos subidas meu querido amigo, tentemos as marginais.
Ah! Decidiu subir? Quantos degraus tem esse altar? Se olhar para trás, diga-me, o quão marginal tornou-se aqueles tempos de desordem e obscuridade? E mais, a pergunta que não cala, o que tem nesse enfeitado plano divino, valeu o dizimo pago?
Sinto lhe dizer meu velho, o copo sobre a televisão já não funciona. Temos telas planas e não existe mais espaço para pedir que o tempo mude, orar por um retorno ao passado ou resgatar uma vida não vivida.
Mas você já sabe de tudo isso, não é mesmo? É claro que sabe! Sempre soube!
Quanto a mim? Sim, você vai gostar de saber.
Tornei-me o cachorro raivoso que protege a ninhada e esconde ossos no quintal para roer mais tarde.
Mas veja como a vida é, tornando impossível que me esqueça da localização dos esqueletos, me presenteando com um circulo intimo de fantasmas que teimam em me lembrar qual o cardápio do jantar, para que eu volte a remoer velhas lembranças.
E aqui, meu velho amigo... meu velho e bom amigo... remoo você.
É nisso que nos tornamos, é com isso que teremos de lidar.
Até algum dia.
Quem sabe.